19 November 2009

Ahahahahahahahahah!
Não me apetece parar de rir!
Depois de uma ausência de três dias, regresso ao trabalho e deparo-me com um emailzinho da Segurança Social a dizer que estava confirmada a alteração da minha morada. Ora, dois dias antes, tinham-me jurado a pés juntos que jamais conseguiria fazer a alteração via email. Possuo poderes ocultos e, por isso, consegui dar-lhes a volta?? Ahahahahahah! Logo agora, que eu até já estava disposta a tratar do assunto por carta registada e aviso de recepção, para não se perder a continha do hospital que há-de chegar e que eu prefiro pagar logo do que adiar e ter de levar com os juros de mora. Será que as boas intenções também são ouvidas pelos Céus??
O meu filho acha graça a tudo. Riu-se quando me viu de olho tapado. Fez-me muitas perguntas. E não cessou de me elogiar, mesmo assim. A meio de uma ida ao WC, olhou-me sorridente e disse-me que gostava muito de mim. E que eu era linda. Linda, eu, de olho tapado? Sim, linda na mesma, porque o meu penso até era muito giro, e as minhas calças cor-de-rosa também eram muito giras. O que importa tudo o resto, se aos nossos ouvidos chegam palavras tão amorosas e sinceras??
Ontem, novo check-up. Resultado: penso fora. Não coube em mim de felicidade, quando me apanhei na rua e senti o ar fresco no olho. Sensação estranha, voltar a poder ver de ambos, quando já me estava a habituar a ter visão só num. A pouca luz do fim do dia proporcionou-me uma caminhada lenta e agradável, que me ajudou a habituar ao novo estado. Ao longo dessa meia hora, senti-me grata por o processo me estar a correr tão bem, sem dores ou azares. Não tenho dúvidas, há um anjinho do meu lado a cuidar para que este episódio se encerre com nota positiva. Resta-me passar por mais duas etapas, que compreendem a retirada dos pontos, uma parte já no sábado e a outra daqui a uma semana. E depois vou celebrar. E agradecer. É mais do que merecido!
Dormir, dormir, dormir. É a melhor terapia. A melhor maneira de nos impedirmos de começar a dar um jeito à casa ou a pôr em ordem as tarefas que sistematicamente vamos adiando. Um Trifen a dobrar pôs-me KO por umas 4 boas horas. O tempo chuvoso e muito escuro também ajudou. E o silêncio da casa vazia... Quebrou-se ao início da noite, com a entrada excitada do meu filhote, que se fartou de rir de espanto por eu só ter um olho.
No dia seguinte, bem cedo, fui passar mais umas três horas de espera no mesmo corredor cheio e sem cadeiras livres. Só que desta vez custava-me um bocado estar ali de pé... Cheguei às 9 para ser atendida às 11:30. O prognóstico foi positivo, valeu a espera. Depois, fui sozinha para casa, de transportes. O sol brilhava demais, mas à sombra até se aguentava. A caminho do combóio, pensei que tinha de passar pela farmácia e aviar os medicamentos. Assim pensei, assim olhei para o lado e eis exactamente à minha frente o querido símbolo verde a reluzir. Foi só atravessar em linha recta! Despachei a receita e voltei ao meu caminho. Ah, era bom descobrir a transversal que me liga à avenida onde fica a estação dos combóios... E logo ali à esquerda ela se apresentou, tal como eu tinha desejado! Caminhei até à estação, tirei o bilhete e preparei-me para aguardar uns 20 minutos, que àquela hora o tempo de espera era maior. E minutos depois de me ter sentado e fechado os olhos, ouço o cmbóio parar à minha frente! Tive um anjo por companhia durante toda a manhã, só pode!
Mal pus o pé em casa, toca a comer e... a dormir a tarde inteirinha. Não sei como dormi tanto! Ms soube bem e mantive-me quietinha e sossegada.
A minha única boa perspectiva era o tecto. Mesmo assim, ia vasculhando com o olhar tudo o que conseguia, a ver se era exactamente como nos filmes. De vez em quando, alguém vinha e metia-me coisas no olho - pingos, pomada, ou limpavam apenas. Ao lado, a maca de um velhote, muito quieto. Assim que o retiraram, a minha foi para o seu lugar. E quase que nada começava, porque não havia meio de convencer os médicos de que a minha tensão arterial é MESMO muito baixinha. Lá se conformaram com os meus valores e deram início ao trabalho. Meteram-me uma fita-cola ao longo da cabeça, para não cair na tentação de a mexer, colaram-me um pano à cara, recortando só o espaço por cima do olho que ia ser tratado. Tudo isto feito muito devagar e quase em silêncio. De tempos a tempos, a minha médica trocava umas impressões com o outro médico. Percebi, pela conversa, que ela estava a aplicar em mim uma técnica com a qual ele já estava familiarizado e ela não. Não senti nada. Não sei se me deram alguma picada, sequer. Apenas os nós dos pontos, mas sem qualquer dor. Aqueles minutos pareceram-me uma eternidade, embora talvez tenha durado uns 10 minutos, se tanto. O meu corpo é que, de tão quieto que tinha de estar, estava cheio de vontade de se remexer. Por fim, a médica deu como terminada a cirurgia, diz que me portei muito bem e tudo tinha corrido na perfeição. Que amanhã de manhã devia apresentar-me ali para ela dar uma vista de olhos ao meu querido olhinho recém lipo-aspirado.
O meu gajo não conseguiu ir ter comigo logo à saída, sarilhos com o estacionamento obrigaram-no a ficar no carro à minha espera. Saí. Sensação de desorientação absurda, que nem via o elevador ali mesmo à minha frente. Insegurança no equilíbrio. Muito estranho. Achei o elevador, fui para a rua, chovia a cântaros. Mas o gajo não demorou e prontamente levou-me para casa. Uma cama quentinha e às escuras esperava-me para uma longa soneca.
Do outro lado da porta da Cirurgia de Oftalmologia, há um outro mundo - de enfermeiros, de gente zarolha, de apetrechos, e um corropio de macas que não acaba!
Fui encaminhada para um gabinete, a fim de trocar a minha roupinha por uma bata descartável que, de tão transparente, tinha de levar um lençol (quentinho, que sorte!)por cima, enrolado em jeito de sari. Mas ali ninguém ficava mais ridículo que ninguém, pois todos os pacientes trajavam igual - os lençóis, as botas de plástico, as toucas. Enquanto aguardava que me levassem para o bloco, cruzei-me com um rapaz recém-operado ao mesmo, que me pareceu com muito bom ar e a quem perguntei tudo o que consegui. Diz que só ia sentir uma picadinha no olho. Ok, só uma picadinha de uns segundos, vou aguentar, pensei cá para os meus botões. E depois levaram-me.
Já seria de esperar o nó na barriga de domingo à noite, que me tirava a vontade de comer e tudo. É assim que eu sou, penso em tudo, penso no pior, para levar o tema muito bem digerido quando tiver de me apresentar no máximo das minhas forças. E assim foi. Segunda-feira acordei tranquila, fui calmamente para o hospital, ali estive 3 horas à espera, em pé, a fazer de rotunda para o mar de velhotes que ocupava os corredores estreitos e todas as cadeiras disponíveis. Hora e meia de espera, ouço o meu nome só para ser avisada de que ainda ia ter de esperar mais. Assim, fui até à rua, matar o tempo ao telefone. À hora indicada, voltei para o corredor estreitinho (que nesta altura tinha um cheiro nauseabundo vindo do WC que ficava mesmo ali). Ainda estava à procura de uma parede para me encostar e já ouvia o meu nome no altifalante. Era agora. Passei a porta e entreguei-me.

13 November 2009

Sobre outro tipo de corte e costura

Há coisas boas que atenuam os nervos como, por exemplo, descobrir que na lojinha da esquina há gente disponível para me fazer uns arranginhos jeitosos e personalizados. Os olhos da cara, será o que me vão pedir quando vier a conta. Tomara que não se armem em esquisitos quando virem que um deles já não está no seu melhor estado!

Rammstein - Frühling in Paris

Por ora, é este elixir auditivo que me vai acalmando os nervos. Tem estado hoje a tocar non-stop no meu windows media player (o original é melhor que esta versão!)

É oficial. Segunda-feira, pela fresca, vou apresentar o meu olhinho a um bisturi que se quer bem afiado e certeiro. Breath in, breathou, breath in... A médica é uma querida, meiguinha e blá blá blá... mas o meu estômago é cobarde e até treme só de pensar que faltam apenas dois dias para a cirurgia. Conhecendo-me como me conheço, já estou a ver a luta: a razão a argumentar que tem de ser, a maturidade a tentar apelar ao suposto bom-senso da idade, e as pernas a protestar, a fazerem tracção e a tentar virar no sentido contrário ao do hospital. Que figurinha, meu Deus. É tão vergonhoso ser-se cobarde...
Aqui no trabalho, já vamos em duas baixas de gripe A oficial. Fora as ameaças que entretanto já foram ficando em casa... Ou a malta é positiva e sacode a preocupação, ou entra em histeria e à menor coisinha fica em pânico!
(é-me sempre tão estranho estar a conversar com uma mulher e perceber que ela não me tira os olhos do decote...)

12 November 2009

Estou verdadeiramente furiosa!
Como se comunica com uma parede com o ego mais forte que um toiro, mais impenetrável que o aço? O óbvio está ali tão estampado, em todas as cores, tamanhos e feitios. E ainda que o óbvio não o seja para todas as pessoa, como é que se faz para que quem não vê passe a ver?
O escapar à realidade, que conforto. Nem que seja temporariamente, o mundo passa a ser um sítio maravilhoso. Escapar à inconstância da realidade, sempre. Sempre. Sempre. Sempre. Sempre. Será coragem ou arte?

10 November 2009

Gosto muito de ver o "America´s Next Top Model". Excepção feita a todos os momentos em que entra a Tyra - em pessoa, no júri ou no "Tyra Mail", porque a criatura é tão vaidosa e convencida que é boa que se torna parva e excessiva. E... qual a graça de meter a porra da foto dela em todos os cantos da casa das meninas, e no "tyra mail" e tudo e tudo?
Tyra à parte, acho o conceito do programa engraçado (distrai-me desde que deito o puto até eu própria adormecer, sem ter que pensar). Os desafios nem sempre são fáceis, e até passei a achar que a vida destas meninas até alcançarem a ribalta é uma porra muito suada. Na season que está a passar agora e que inclui uma rapariga (bonita, que até chateia!) que sofre do Síndrome de Asperger, uma variante do autismo que não inclui qualquer atraso ou deficiência mental. Aparentemente, é uma miúda como as outras, diferindo apenas na sua dificuldade em lidar com os outros. Ontem, foi eliminada. Deu-me pena. Tal como em milhentas outras áreas da vida, só vinga quem possuir aquela personalidade fun and loving. Quem não for assim naquele meio, não arranja trabalho. Tão simples como isso. No caso desta menina, apesar da figura esbelta e das belíssimas fotos que tirava, nunca chegaria ao primeiro lugar do concurso, porque o contacto social é-lhe extremamente penoso, e nem com uma justificação devidamente diagnosticada teria qualquer hipótese perante um cliente implacável, sem tempo a perder com pessoas especiais.
Estas meninas passam uma vida porreira neste programa, no sentido em que vivem numa casa linda, passeiam, viajam, encarnam diferentes personalidades e experimentam diferentes cenários para fotografar. Mas, mais do que a sua beleza, é a sua personalidade a mais avaliada, a mais duramente criticada. Por vezes, o júri não lhes poupa frontalidade em aspecto nenhum. Às vezes, saiem dali a chorar. E com razão. A verdade e a frontalidade por vezes magoa e não é pouco!

A Taberneira

Anafadinha, seios cheios, cabelos presos em rabo-de-cavalo, com alguns fios soltos junto às têmporas, vestido apertado, a taberneira trabalhava numa tasca muito frequentada. Devia pouco à beleza e às boas maneiras, no entanto esforçava-se por ser uma boa rapariga e atender bem os clientes. Falava alto, quando atendia uma mesa bradava o pedido ao homem do balcão, seu patrão. Mas no meio da confusão do entra-e-sai, das conversas dos clientes e rebuliço da loiça a ser arrumada, a sua voz pouco se pronunciava. A clientela habitual, gente humilde, que ia beber o seu copo e descontrair antes de ir para casa. Mas às horas mortas, que é como quem diz a hora de jantar, entravam uns quantos intelectuais. Figuras vestidas sem os rigores da moda, ar muito alheado, abancavam à mesa e por ali permaneciam umas boas horas, conversando quase em silêncio. Até quando se riam mal se faziam ouvir. Bebiam pouco. Quer dizer, uma caneca de cerveja cada um era tudo o que ía para aquela mesa. A taberneira bem tentava ouvir as suas conversas, mas era tudo tão baixinho e quase em código que nem metade conseguia perceber. Devia ser engraçado pertencer a um grupo assim, que mal se move quando fala, que diz coisas muito elevadas só com o suave gesticular dos lábios, que só dá atenção ao que for intelectualmente estimulante. Às vezes, quando ia servir essa mesa, tentava meter conversa, dizer alguma piada, mas de volta recebia silêncio e olhares de o-que-é-que-estás-para-aí-a-rosnar. E sentia-se tão humilhada... Um dia, desistiu. Passou a servi-los de olhos baixos, muda, ao contrário do que fazia com as outras mesas, as quais atendia alegremente, dizendo a sua piada e recebendo risadas como resposta. Cada qual no seu lugar, reflectia, de vez em quando, sem se aperceber de que, à sua maneira, também filosofava sobre a vida.